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: : Entrevista do mês |
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Edvaldo Santana - Novo CD
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Paulistano da periferia, filho de pai piauiense e mãe pernambucana, Edvaldo Santana é um dos fundadores do Movimento Popular de Arte (MPA) – primeiro agrupamento de artistas na periferia. Nos anos 80, o MPA comandou atividades de lazer e cultura garantindo a ocupação de espaços culturais (praças, favelas, salões de igrejas e, até mesmo, ruas) que propiciou novas perspectivas para o artista e, conseqüentemente, levou ao nascimento de um público interessado nas idéias que refletiam o seu cotidiano. A produção de um LP com os artistas locais e a gravação do programa “Cidade dos meus amores” para a TV Cultura registraram as criações desenvolvidas pelos artistas entre 1979 e 1985.
Aos 20 anos, Edvaldo Santana passou a dedicar-se totalmente à música, que, desde sua infância, estava presente em sua vida, nas reuniões de seu pai e amigos, e na adolescência, quando escrevia letras para os festivais estudantis da Zona Leste paulista. Formou a banda Matéria Prima, com a qual gravou seus primeiros discos, apresentou-se com Tom Zé num festival de artes de Assis, além de realizar shows em teatros, festivais e programas de televisão, como Fantástico, Clube dos Artistas, Silvio Santos, Bolinha, Raul Gil, entre outros.
Seu primeiro trabalho solo independente foi o CD Lobo Solitário, de 93, no qual gravou a música Metrô Linha 743, de Raul Seixas, um de seus artistas preferidos. Edvaldo Santana pretende relançar este álbum, hoje fora de cartaz. Dois anos depois, veio Tá assustado? e a faixa Caximbo tornou-se um vídeo-clipe exibido na MTV.
Adepto a outras formas artísticas, principalmente à poesia, ele faz da sua música uma simbiose original entre o legado deixado pelos seus ancestrais de negros e índios e as manifestações culturais espalhadas universais.
No seu terceiro álbum, Edvaldo inaugurou parceria com Itamar Assumpção (Blues cabloco) e gravou Dor Elegante, música lançada mais tarde por Zélia Duncan.
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Como foram seus primeiros contatos com a música?
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A música exerce um fascínio visceral nos meus ancestrais nordestinos, cresci ouvindo xote, embolada, choro, bolero, samba e a diversidade musical que os meios de comunicação da época proporcionavam, além, é claro, da Literatura de Cordel que é o livro de cabeceira do povo do sertão. Meu pai Felix, já falecido, tocava violão e organizava em casa encontros com amigos músicos, cantores, poetas, “Seu Gervasio”, “Seu Valdomiro” e aqueles momentos seduziam a mim e aos meus irmãos que a gente vivia dançando, cantando, brincando ao som daquela música brasileira cujo repertório era composto por músicas inéditas e também por Luis Gonzaga, Jacson do Pandeiro, Pixinguinha, Teixeirinha entre outros grandes artistas. Além desta influencia oral de meu pai, tive o privilégio na adolescência de ouvir Beatles, Carlos Santana, Roberto Carlos, Jorge Bem, Chico Buarque, Altemar Dutra, Gilberto Gil, Jimmi Hendrix , Ray Charles, entre outros.. |
Nos anos 1970, nasceu o Caaxió. O que este grupo representou para sua profissionalização como músico?
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Caaxió, nome de uma árvore amazônica foi um grupo criado na Escola Municipal ”Agrupadas” em 1971 para participar de festivais estudantis na região de São Miguel Paulista. No primeiro momento não havia interesse em que ele se transformasse num grupo profissional. Naquela época, mesmo menor de idade, eu já trabalhava como operário durante o dia na fábrica de brinquedos “Mimo”, que ficava no Braz, e estudava à noite em São Miguel . Fui vizinho de um dos maiores cantores populares do Brasil que era o Antônio Marcos, nosso grande ídolo na adolescência, e esta possibilidade de se tornar artista estava na cabeça de toda molecada que morava na região. Nessa época era chamado de “pato roco” pelos meninos que diziam zombando que eu nunca seria cantor, mas com o incentivo de algumas pessoas que viam o Caaxió como um grupo que poderia atuar no rádio e na TV começamos a sair de São Miguel e tocar na noite de São Paulo, principalmente no centro velho da cidade, por onde se apresentavam os grandes artistas brasileiros. Em 1974 recebemos o convite de Luis Carlos Arutin para se apresentar num dos teatros mais importantes da cena cultural brasileira: o Teatro de Arena, que ele dirigia, um dos redutos de resistência à ditadura militar. Neste processo, entre o inicio da profissionalização como músico e depois de ser dispensado pelo exército por arrimo de família, ainda trabalhei na CIA Nitro Química Brasileira em São Miguel Paulista. |
Eram os anos de chumbo. O Caaxió sofreu com a censura?
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Como havia dito o Caaxió grupo formado por mim, Fernando Teles, Luciano Bongõ, Zé Boris, Zulu ,Tiziu e Osnofa, diante do convite de Arutin criou um show chamado “Casca de Vento” para apresentar no Teatro de Arena e tivemos boa parte das músicas proibidas pela censura, o regime autoritário dos militares comandava o país, mas assim mesmo fizemos o show que foi nossa primeira apresentação profissional em seguida, fizemos também a primeira viagem para o Rio de Janeiro para procurar gravadora e ficamos quatro dias sem comida e sem guarida. Por ironia do destino, depois de um ano voltamos ao Rio de Janeiro, na refinaria de Manguinhos para gravar o “Fantástico” já com o nome de “Matéria Prima” para o lançamento do nosso primeiro LP. |
Ainda nos anos 1970, o Caaxió passou a se chamar Matéria Prima e veio o convite para acompanhar Tom Zé. O que você considera mais importante nesse período?
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A mudança de nome da banda foi imposição dos produtores de gravadora, reunimos propostas de todos os componentes e o nome Matéria Prima, foi o que mais agradou, coincidentemente mais adiante também virou nome de programa de TV do Serginho Groisman na Cultura. Naquele momento já éramos uma rapaziada conhecida por porteiros, secretarias, artistas, diretores, editores, nós íamos todos os dias para aquele pedaço da cidade onde circulavam as pessoas envolvidas no meio da música. no centro velho de São Paulo. Tom Zé estava procurando músicos para acompanhá-lo num Festival em Assis, interior de São Paulo, pois sua banda de apoio que era o Grupo Capote estava fazendo sucesso e estava sendo muito requisitada para shows. Foi quando Michel, diretor de uma editora e que gostava muito da gente, acabou nos apresentando ao Tom Zé e ao Vicente Barreto. E aí começou a viagem São Miguel-Perdizes quase todas as manhãs (detalhe não tinha Metrô) e o Tom Zé estava na dieta da Macrobiótica só comia grãozinho. O primeiro dia daqueles cinco malucos da periferia foi quase insuportável e na hora de ir embora a reclamação era unânime: só haveria ensaio no outro dia se mudasse a comida. Para agradar a banda, Tom Zé pediu para que Augustinha, sua fiel escudeira de Guaianazes, cozinhasse uma comida mais popular. Tirando a história do rango e do transporte, pra mim foi muito produtivo entrar em contato com outro universo estético da criação, no inicio, um choque de idéias inevitável, mas com o passar do tempo fui percebendo o quanto aquele aprendizado era importante pra mim. Cantei junto com o Matéria Prima muitas canções de Tom Zé, bem antes do americano encontrar “Estudando o Samba” . |
Conte um pouco da trajetória do Matéria Prima.
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Matéria Prima tem momentos distintos: o primeiro é que após o trabalho com Tom Zé fomos contratados pela gravadora “Chantecler” com ajuda de Fred Jorge e Caubi Peixoto, depois de termos gravado uma infinidade de fitas demos e ter recebido muitas negatrivas. No inicio, o Matéria Prima participaria de uma coletânea com outros artistas entre eles Cornelius, vocalista do Made in Brasil, mas o produtor Humberto Garim propôs que a gente gravasse logo de cara um LP, com o estouro do “Secos e Molhados” acreditava que o mercado estava aberto para novas bandas..Compus juntamente com Fernando Teles e Osnofa e gravamos em menos três meses o álbum “Matéria Prima”, que foi lançado em programas de alcance nacional como “Fantástico”, “Silvio Santos”, “Clube dos artistas”. A segunda fase do Matéria Prima está ligada a fundação do MPA, Movimento Popular de Arte, agrupamento de artistas criado no final dos anos setenta em São Miguel Paulista com a finalidade de trazer para o público carente da periferia cultura e lazer através da arte. Acredito que esta fase foi para mim o momento de maior engajamento político e também de profundo aprendizado organizacional e ideológico, foi nesta época que, através de uma amiga jornalista chamada Marizete que trabalhava na gravadora “Copacabana”, pude ter acesso à música negra americana como o blues e o jazz. O MPA serviu de projeto piloto para as futuras Casas e Oficinas de Cultura que hoje existem nas periferias da cidade. Sua importância cultural para a região e para a cidade é inegável, e eu tive o privilégio de contar, conhecer e conviver com pessoas maravilhosas que contribuíram muito na história do Movimento Popular de Arte entre elas: Pedro Peres, Severino do Ramo, Akira Yamasaki, Gilberto Nascimento, Edson Tomas, Eder Vicente, Gildo Passos, Sacha Arcanjo, Raberuan, Domenico Tinnelli, Arlete Taboada, Cláudio Gomes, Ceciro Cordeiro, Dorival Padeiro, Gildo Passos, Osnofa, Artenio Fonseca, Mauro Paes, Crisol, Sueli Kimuira, João Caetano, Eliana Li, Rosana Crispin, Tiziu, Grupo Goró, Rubens Flo, Nelson Mouriz. |
Aí você vai para o Rio e inicia a carreira solo. Por que o Matéria Prima acabou e como foi o período em que você esteve no Rio?
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Quando fui para o Rio, desta vez para morar, já era 1986 , eu estava decepcionado com o uso e o abuso que os partidos políticos faziam com os movimentos populares. Em São Paulo, de novo a direita assumia o poder através de Jânio Quadros e, no Rio, o governador era Leonel Brizola um dos símbolos da luta contra a ditadura militar. O Matéria Prima vivia uma fase conturbada com muita divergência entre seus componentes e naquela altura um amigo e parceiro do MPA, Akira Yamasaki, a quem sempre ouvi com atenção, incentivava a minha partida. Ele acreditava que eu tinha que cuidar mais da minha obra e que havia chegado a hora de ir para outra cidade. É claro que haviam vários motivos para a partida: eu queria conhecer e conviver com diferentes artistas, precisava voltar a me motivar e me interessar pela estética da arte. Nos primeiros meses de orla eu sofri um pouco, mas depois foi muito bom. Me instalei em Santa Teresa, que era um paraíso com bondinho e tudo, e levava uma vida bem do jeito que queria, compondo, dançando nas gafieiras, jogando bola no Aterro do Flamengo, cantando no bar do filho do Nelson Rodrigues, em Botafogo, juntamente com o violista Paulo Auera e ainda arrumava tempo para ensaiar e cantar num coral nas festas dos amigos, sem deixar, é claro, de observar e curtir a estonteante beleza natural carioca. Não posso deixar de mencionar que a minha passagem pelo Rio foi um divisor de águas para a minha trajetória artística. Eu estava muito aberto a ouvir desde Naná Vasconcelos, iluminando o Parque da Catacumba, a Orquestra de Música Brasileira, sensibilizando o Arpoador, além do suingue e da qualidade da nova geração de compositores cariocas como Jorge Aragão, Sombrinha, Arlindo Cruz, que eu encontrava no estúdio da editora que Roberto Santana dirigia na Gávea. Como freqüentei o posto 9 em Ipanema era muito comum encontrar artistas como Melodia, Cazuza, Ferreira Goulart na areia e no boteco onde meu amigo Carneirinho trabalhava ele era um cara de São Miguel Paulista que morava no Rio há alguns anos. Ia me esquecendo de seu Manoel vascaíno que me alugava a casa dos fundos em Santa Teresa com quem tive uma amizade paternal maravilhosa, jogávamos baralho e quase sempre ele me sacaneava validando as cartas lavadeiras que ele apresentava no buraco. |
Nos anos 1990 você já está de volta a São Paulo. O que trouxe na bagagem e como foi o reencontro com a cultura da paulicéia?
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Já era hora de voltar pra Sampa , sou um bixo muito inquieto o Rio de Janeiro já havia me proporcionado o choque necessário para reativar o meu interesse pela música, agora era momento de trabalhar e São Paulo é, sem dúvida, a terra do experimento que agrega muitas vertentes estéticas e que abre horizontes para quem busca o aprimoramento da obra.Trouxe na bagagem a experiência de morar sozinho de ter que me virar para sobreviver longe dos amigos e familiares e também, a sabedoria de um povo bom que tem um suingue peculiar e que me ensinou a ter paciência e perseverança, além, é claro, de me fazer voltar a sorrir como nos velhos tempos da Vila Nitro Operário.Nesta volta pra São Paulo o Ademir Assunção, jornalista e poeta, que eu havia conhecido em Londrina e que depois se tornaria parceiro em canções que gosto muito me apresenta Paulo Leminski, com quem tive uma amizade e parcerias breves porém substanciais. A poesia daquele polaco mudou o rumo das minhas idéias, nunca uma obra poética havia me tocado tanto. Severino do Ramo já havia me falado dele e da poesia Concreta mas só depois que eu conheci o Leminski e que tentei ler o Catatau que fui me aproximar de Haroldo de Campos, quando musiquei e gravei por sugestão do Ademir um fragmento das Galáxias “Torto” no álbum “Lobo Solitário” onde provoco fusões entre o blues o samba o rock a Rússia Pegou Fogo na Sapucaí, Samba do Japa e o Metrô Linha 743 do Raul Seixas. |
Você é de São Miguel Paulista, periferia da cidade. De repente, parece que a periferia está na moda. O que há de verdade e o que há de maquiagem entre a periferia que você conhece e a mostrada em livros, TV, cinema etc.?
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A periferia, o subúrbio onde mora a grande massa que alimenta a nação, sempre foi berço de artistas criadores especiais como Cartola, Pixinguinha, Itamar Assumpção, Macumbinha, Racionais MC’s e também um grande mercado consumidor de música. Acredito que se o cinturão que fica nas margens do Brasil fosse proteinado com arte, cultura, comida e lazer nós mudaríamos o comportamento opressivo em que vivemos. O MPA produzia oficinas, cursos, eventos de poesia, teatro, dança, música envolvendo as pessoas formando público e despertando artistas para a criação,quando chega o Hip-Hop reata o elo perdido da rebeldia e se torna a principal forma de manifestação urbana dos excluídos, acorda a juventude que precisava se manifestar e tinha perdido o bonde com a sacanagem feita pela comunicação nascida no regime militar. A música brasileira rural ou urbana sempre sustentou a indústria da música, mas só agora com o estouro do Rap, vendendo discos e shows, criando um novo mercado de trabalho para muita gente excluída, provando que santo de casa faz milagre sim desde que haja informação e conhecimento é que a mídia é obrigada a reconhecer um fato que há séculos foi omitido dos livros didáticos das escolas, dos meios de comunicação: a contribuição concreta dos artistas populares na formação da cultura brasileira. Não acredito que haja interesse da mídia em mudar o foco de visão desta sociedade extremamente fútil e consumista, a propaganda continua incentivando a todo momento “que você precisa ter para ser alguma coisa”. Há uma variedade de obras construídas a partir das idéias da população brasileira que são maravilhosas, agora a arte, por mais que ela tente, nunca poderá ser completamente real. Esta coisa de moda é sempre ligada a negócios e, portanto, é autoritária e chata, precisamos ficar sintonizados nos sinais para compreender os atalhos “é só não botar a viola no saco/ joga fora o guardanapo / vem comer com a mão”-já dizia Sérgio Sampaio |
A infância na periferia influencia muito sua arte?
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Bastante. A periferia é um caldeirão de referências sonoras, literárias e visuais. Ela possui uma estética peculiar e instigante, por ela passam infinitos desejos e idéias. Como já disse, São Miguel é fundamental para a minha trajetória como pessoa e artista, foi lá que aprendi a respeitar os mais velhos e cuidar das crianças, a ouvir Roberto Carlos e cantar Altemar Dutra, assistir ao vivo ensaios do grupo de Choro do Nersésio na Rua Abaitiga, tocar com Tercilio entrevado numa cadeira de rodas me incentivando a seguir a carreira de cantor. Foi lá que aprendi que esta mistura de japonês, português, italiano, espanhol com nordestino, índio e negrão é muito rica, é uma ponte de aproximação entre a teoria da organização e a prática da intuição. Meu pai me ensinava que o cara que nega o lugar onde nasceu e foi criado perde sua identidade e não vai ser respeitado em lugar nenhum. Em praticamente todos os álbuns que gravei há uma nítida influência da periferia no conceito da obra, além de promover parcerias com compositores da zona leste como Osnofa, Itamar Assumpção, Akira Yamasaki, tenho feito referências às pessoas e aos lugares que compõe o universo da periferia de onde sou oriundo. |
Você gravou um clip pelas ruas de São Miguel. Como foi para as pessoas que te viram crescer por ali receberem o cantor e compositor Edvaldo Santana?
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Eu tenho uma identificação natural com as pessoas do bairro, no futebol, na escola, na rua, no bar, no trem, no ônibus, na comunidade. Foi muito bom gravar um clipe onde a música “Ruas de São Miguel” tem influência do blues num lugar e onde a maioria do povo é nordestino. Houve uma interação interessante, pois juntamos o ritmo que saiu do meio rural americano com os personagens principais que saíram de suas terras para construírem as metrópoles brasileiras. Sempre fui muito bem tratado na minha área pois busquei respeitar todos os tipos que compõem a cena São Miguelina sem discriminar ninguém, procurei mostrar a diversidade cultural que existe na periferia, potencializando a prática da camaradagem e da alegria. Em vez da guerra e desespero - arte, amor e respeito. |
Há quem diga que a pessoa pode sair da periferia, mas a periferia não sai da pessoa. O que jamais você perderá do que conheceu na periferia?
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Independente de ser da periferia ou não, de estar em Londres ou na Vila Rosário, o ser humano sofre influencia do lugar onde habita, dos seus costumes, da sua cultura isso é um fato concreto e vai carregar esta formação durante a sua existência. Acredito que a gente vai acabar conhecendo e aprendendo com outras formas de comportamentos, pois é muito saudável você procurar aprimorar e, para isso, buscar conhecimento. Alguns sentimentos e atitudes relacionados com lealdade e dignidade que você viu e viveu não se apagam vão servir de referência para sua trajetória pessoal e profissional. Para mim a base que tenho é total do lugar onde nasci e vivi. |
Você já teve trabalhos lançados por selos e gravadoras. O que há de bom e de ruim em relação a um CD independente?
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Desde 1978 que venho gravando de forma independente, muitas vezes com pouquíssimos recursos. A falta de recursos para a produção e o escoamento da criação pela mídia sempre foram fatores determinantes entre o artista estar numa gravadora a mercê do que os produtores acham que é vendável ou produzir sem ter vinculação com o mercado com liberdade de idéias. Experimentei a independência antes de gravar pela CBS e Chantecler e percebi que era muito mais saudável para mim, escolher o caminho da arte sem se preocupar com catalogamento mercadológico. Este negócio de você ter que vender a qualquer custo não combina com arte, penso que, se nós temos uma música rica e diversa, não me interessa ser enquadrado como artista disso ou daquilo e limitar meu alcance de encurtar as distâncias . Se quiser saber de verdade, a grande maioria dos artistas que puderam desenvolver suas idéias dentro de uma gravadora eram filhos da classe média, pois não é nada fácil você criar sem acesso, sem grana, sem estímulo para lapidar o diamante. O ideal é que você tenha recursos para potencializar as suas idéias e aprimorar a estética, vivo buscando esse atalho e acredito que tenho conseguido continuar na trilha do aprendizado que a obra artística requer para o seu desenvolvimento. |
Em seu 5º e mais recente CD, Reserva de Alegria, assim como em trabalhos anteriores, você conta com a parceria do guitarrista Luiz Waack na produção musical. O que isto representa na sua música?
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Tenho parceiros que são fundamentais para o prosseguimento da caminhada, Luiz Waack, além de ser um grande músico, possibilitou meu acesso as ferramentas de produção e potencialização da música que crio e já há algum tempo co-produz os meus álbuns. Uma pessoa generosa que já havia trabalhado com os ícones da produção independente brasileira como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, sempre entendeu o fundamento da minha obra. Ele, Paulo Lepetit, Daniel Szafran, Bocato, Mintcho Garramone, Lenine, Itamar Assumpção, Nuno Mindelis, Haroldo de Campos , Ademir Assunção, Tom Zé, Zélia Duncan, Reinaldo Chulapa, Eduardo Batistela, Ricardo Garcia, Mario Bortolotto, Yaniel Mattos são parceiros de outras vertentes estéticas com quem aprendi muito. O tráfego entre os grupos de pensamentos diferentes é necessário, a reeleitura da obra por outros artistas proporciona um outro foco de entendimento. Tem uma boa leva de artistas de mundos diferentes que cantam minhas músicas como as paulistas Maricene Costa, Miriam Maria, Verônica Ferriani, Daniela La Salvia, as mineiras Titane, Patrícia Amaral, Jordana e a americana radicada em Minas Gerais, Robica Blues, a baiana Ana Amélia, as cearenses Mona Gadelha e Ana Torres, os grupos Ururaí, Boi de Chocalho e Religare os cantores Arnaldo Antunes, Emerson Boy, Nelson Brolese, Wilmar Santos, Conrado Pouza |
O que o público encontra no CD Reserva de Alegria?
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Procuro ser coerente com meu pensamento quando produzo um álbum, com “Reserva de Alegria” não foi diferente, acredito que a arte aguça minha sensibilidade chamando a atenção para os temas e assuntos que me interessam naquele momento da vida. ”Quem é que não quer ser feliz” é uma música que dá o tom dos meus sentimentos. Neste álbum aproximei o samba do rap e do blues quando chamei Thaide e Happin Hood para participarem buscando um encontro entre o MPA e o HIP-HOP; trouxe os mouros e os beduínos para o nordeste quando convidei o Chico César para fazer os vocalizes em “Raios do Oriente Médio”, música que compus no dia em que o Bush anunciou a invasão do Iraque. Gravei “Luana de Maio” e “A minha dor”, músicas que me remetem a São Miguel e ao Movimento Popular de Arte; gravei, também, “Chacina” onde alio a concretude de Cid Campos e a melancolia urbana de Bocatto; tem até um samba enredo que fiz para a escola de samba Unidos de São Miguel com a participação de Bré no pandeiro e Marcel Martins no cavaco tenor; e o momento blues do álbum ficou para “Abelha e Pardal” que tem a gaita de Bene Chiréia e os violões que toquei junto com Luiz Waack. Em termos rítmicos, é um disco bem latino com salsa, bolero e mambo, veia musical que sempre gostei e que, juntamente, com o blues, o baião, o reggae e o samba trazem o sol da música negra para o trabalho. Um outro convidado que tocou piano e violoncelo é o cubano Yaniel Mattos, filho dos “Jubilados” grupo de música cubana com quem tive o prazer de me apresentar no Sítio Arqueológico da Serra da Capivara no sertão do Piauí. Em “Reserva de Alegria” há também uma fonte estética que tem haver com essa minha vida de urbano-agreste: nos últimos dez anos tenho me aproximado no samba caipira do Vale do Tietê pois organizo e desenvolvo, juntamente com a comunidade negra ituana (UNEI), projeto cultural onde o foco são as manifestações culturais e religiosa do povo negro.Além desta dádiva doada pelos negros tem tambem a moda de viola dos tocadores do meio rural como Seu Ico, com suas cantorias e seus dedilhados interioranos que tem me influenciado muito. O projeto gráfico é do Elifas Andreatto com os bonecos de marionetes criados por Sálvio Santana, um grande artista que partiu para outra esfera. |
Seu toque para quem vive da arte...
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Mente distraída e alma desligada para desenvolver a obra sem trauma. Coragem e ousadia para cruzar com outros universos da criação artística. Acreditar que é bom viver e que é privilégio poder ter a possibilidade de escolher o caminho, não ficar preso na busca do primeiro lugar, pois a maior contribuição que um artista pode doar ao planeta é a sua obra. |
Que qualidade mais valoriza na música dos outros?
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A música não precisa de qualificação para ser avaliada ou você sente ou não. Não tenho preconceito com estilo ou ritmo se for bom para o meu coração e para a minha mente, vou ouvir. |
Que qualidade mais valoriza na sua música?
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Inquietação, peculiaridade, melancolia e suingue |
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Não sei se é defeito não ser catalogável |
Se não fosse artista, seria...
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Jogador de futebol profissional, pois amador eu já sou faz tempo |
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Woody Guthrie |
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A Cena Muda -Maria Bethânia |
Disco preferido da sua carreira?
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Todos e o que ainda vou gravar |
Uma música inesquecível...
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Na Asa do Vento- João do Vale e Luiz Vieira |
Que música gostaria de ter composto?
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A música “Carinhoso” do Pixinguinha e a letra da “Cantiga do Sapo” do Jacson e Buco do Pandeiro |
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Luiz Gonzaga |
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Cássia Eller |
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Gilberto Gil |
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Paulo Leminski |
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Independente é uma palavra bem desgastada, temos exemplo recente de gravadoras que pousam de independentes mas inflacionaram o mercado do jabá para divulgar produções no mínimo duvidosas de artistas oportunistas e negociantes que fazem qualquer coisa para manterem seus nomes na mídia. Mas independência também é acreditar que não é preciso passar no funil do desespero para desenvolver sua arte, é ter o direito como qualquer cidadão de opinar sobre todos assuntos, de poder ir e vir em qualquer direção. É ser humilde e respeitoso com todos e não virar puxar saco e nem dedo duro para aparecer no filme a qualquer custo. |
Edvaldo Santana foi entrevistado por: Marcelo Abud - |
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