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: : Entrevista do mês |
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Paulo Vilara - Palavras Musicais
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Paulo Vilara nasceu em Caxambu, sul de Minas Gerais. É jornalista, roteirista e diretor de documentários. Nos anos 1970 e 1980 escreveu sobre cinema nos jornais Estado de Minas, Jornal de Casa, Jornal de Shopping e Suplemento Literário. Em 1980 venceu concurso de roteiros e dirigiu o documentário Carlos Chagas. O passado Presente, selecionado para a Jornada Nacional do Curta Metragem de Salvador e para XIV Festival de Cinema de Brasília. Roteirizou e dirigiu os documentários Dona Izabel – A Magia da Criação, Cataguazes – Um Olhar na Modernidade Brasileira e Guignard – A Educação do Olhar. Um dos vencedores do I DOCTV, em 2004 roteirizou e dirigiu o documentário Mil Sons Geniais. Nos anos 1990 publicou artigos sobre televisão e cinema no jornal Estado de Minas – caderno “Pensar”. Tem textos publicados nos livros Cinema em Palavras, editado pela PBH/Secretaria Municipal de Cultura em 1998; Presença do CEC – Cinqüenta Anos de Cinema em Belo Horizonte, editado pela Crisálida, em 2001; e Histórias da Rua da Bahia e da Cantina do Lucas, editado pela Realizar Cine Vídeo e Idéias, em 2002. É autor do livro infantil Congresso Internacional da Bicharada, editora Arco-Íris, Curitiba, 1996. Tem dois filhos, João Lucas e Pedro. Separado, mora atualmente com a vira-latas Pitu. |
1) Seu livro chama-se Palavras Musicais. Para mim, toda palavra musical é poesia. Toda boa letra de música pode ser considerada poesia?
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Paulo Vilara - No livro faço pergunta semelhante aos quatro compositores por mim entrevistados, mas troco a palavra poesia por poema: letra de música é poema? Os quatro foram unânimes em responder que não, que letra de música é uma coisa e poema outra coisa. Da minha parte, digo que é possível encontrar o espírito poético nos melhores poemas e nas melhores canções. Porque é preciso reconhecer que há um grande equívoco em relação à poesia. Para muitos, basta falar de lua cheia e de amor que aquilo ali é poesia. Não é. E é por isso mesmo que existem tantas definições diversas do que venha a ser poesia. Não vou aqui citar, mas poderia lembrar de pelo menos uma dezena delas, incluindo a de Mallarmé e a de Manoel de Barros, por exemplo. Creio que podemos concordar: poesia é algo que abarca tanto poemas quanto letras de música, é maior do que os próprios poetas ou os compositores de canções.
A profunda desigualdade social e essa imensa porcaria consumista esculpiram uma expressão de horror na face do mundo, mas não destruíram a possibilidade da poesia. A poesia está por aí, presente em tudo, ainda que nem sempre visível aos olhos embaçados da apressada e iludida sociedade contemporânea. Um grande acontecimento poético (nesse caso, performático) será o dia em que um passarinho qualquer defecar sobre a cabeça de George Bush. Ou sobre a cabeça de algum latifundiário que no século XXI ainda explora o trabalho infantil e o trabalho escravo. Ou sobre a cabeça de um desses políticos que infestam a política no Brasil.
Especificamente em relação às letras de música, o que posso dizer é que quanto mais perfeita for a junção melodia-versos, mais diamantina será a sonoridade poética que faz nascer o profundo encantamento das canções. |
2) Qual foi o recorte que você escolheu, visto que escreveu sobre o processo de criação de quatro compositores mineiros?
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Paulo Vilara - Quatro compositores brasileiros e internacionais, nascidos em Minas Gerais. Quando tive a idéia de fazer o livro, o ponto de partida foi o de valorizar a palavra, a letra de música, o trabalho do compositor de letras. É esse o recorte. |
3) Há quem diga que a MPB é nosso maior produto de exportação - superando até o futebol. O que você acha?
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Paulo Vilara - Nós, brasileiros, podemos nos orgulhar de muitas facetas da nossa cultura, incluída aí a do talento de alguns de nossos jogadores de futebol. Nas artes, em todas elas, são muitos os grandes criadores. Mas creio que não resta dúvida quanto ao valor da música brasileira, em especial da canção popular, o que é reconhecido em todos os recantos do planeta. O que impressiona no cancioneiro popular do Brasil é o nível altíssimo de sua produção, em quantidade e em qualidade. |
4) O que foi e o que representou o movimento Clube da Esquina e as composições de Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Chico Amaral?
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Paulo Vilara - O Clube da Esquina não foi um movimento. Em nenhum momento da sua história houve a assinatura e o lançamento de um “Manifesto do Clube da Esquina”. De maneira espontânea, a partir das relações de amizade – as afinidades eletivas –, um grupo de jovens e talentosos compositores e intérpretes foram se juntando e compondo e cantando e fazendo shows e gravando discos e deu no que deu: um testemunho do seu tempo, um testamento de seus sonhos, de seus desejos, de suas dores e alegrias. E das dores e alegrias de milhares de brasileiros. Com uma inventividade musical e poética que deslumbrou e ainda encanta a todos aqueles que têm ouvidos para ouvir. |
5) Como foi o processo de elaboração de teu livro?
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Paulo Vilara - Tive a idéia em 1998. Daí comecei a pesquisar, levantando o número de canções efetivamente escritas por eles e gravadas por um ou mais intérpretes, no Brasil e no exterior. Depois passei a elaborar perguntas gerais, para todos eles, e perguntas específicas, de acordo com as particularidades da vida e da obra de cada um. O passo seguinte foi fazer as entrevistas, uma a uma, que totalizaram cerca de 60 horas gravadas. Ao transcrever esse material bruto, já fui fazendo uma primeira edição. Ao mesmo tempo, levantei a discografia e a iconografia, capas de disco, fotos, documentos de época. Fiquei de posse de um material riquíssimo, que mais tarde possibilitou ao designer Tavinho Bretas a elaboração de um caprichado projeto gráfico para o livro. |
6) Você acha que o movimento Clube da Esquina foi mais importante do que a Tropicália? Se sim, em que termos?
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Paulo Vilara - Como já disse anteriormente, essa é a primeira diferença entre um e outro grupo poético-musical: o Clube da Esquina não foi um movimento; a Tropicália, sim. É como naquela propaganda de cigarro: cada um na sua, mas com alguma coisa em comum. No caso, a coisa em comum é a qualidade de seus trabalhos. Mas as diferenças são grandes. Cito uma, em relação à ditadura militar que se instalou no país de 1964 a 1985. Houve muita dor, muitos de nós perdemos amigos, parentes, conhecidos. Enquanto a Tropicália carnavalizou essa dor, o Clube da Esquina mergulhou fundo nela. Há exemplos em muitas das canções do grupo. Em “Milagre dos Peixes”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, estão escritos esses versos:
Eles não falam do mar e dos peixes
nem deixam ver a moça, pura canção
nem ver nascer a flor, nem ver nascer o sol
e eu apenas sou um a mais, um a mais
a falar dessa dor, a nossa dor
Você vê que há aí a incorporação de um sentimento que é coletivo, um nós que sente a dor imposta ao país, e o compositor popular é apenas um a mais a falar dessa dor. Nesse sentido, os compositores e intérpretes do Clube da Esquina fizeram um trabalho colado à realidade que, naquele momento, contribuiu para dar alento a todos que lutavam pelo fim do regime de exceção e pela volta do respeito aos direitos humanos. Um trabalho artístico de relevância histórica. |
7) Márcio Borges diz em seu livro que quem o influenciou mesmo foi o Neil Young, e não Bob Dylan. Quem foi o nosso Bob Dylan?
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Paulo Vilara - No livro Poesia e política nas canções de Bob Dylan e Chico Buarque, a autora, Ligia Vieira César, embora resguardando as diferenças culturais e políticas das realidades estadunidense e brasileira, faz aproximações entre os dois compositores.
No caso dos quatro compositores focados em meu livro, Chico Amaral é o único que confessa ter sido influenciado por Bob Dylan, e em algumas canções que fez com Samuel Rosa para o Skank, também resguardadas as mesmas diferenças anteriormente citadas, é possível perceber uma linha de trabalho próxima à de Dylan. |
8) Quais os poetas que você ama e convive?
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Paulo Vilara - Carlos Drummond de Andrade, T. S. Eliot, Manuel Bandeira, Maiakóvski, Manoel de Barros, Ezra Pound, João Cabral de Melo Neto, Garcia Lorca, Cecília Meirelles, Baudelaire, Sebastião Nunes, Bashô, Dantas Motta, Walt Whitman, Paulo Leminski, John Donne, Mário de Andrade, Ruben Dario, Mário Quintana, Rimbaud, Guilherme Mansur. E muitos outros e muitas outras. A lista é grande. |
9) Como você vê a música popular brasileira, hoje? Há algo que te encanta? Novos compositores surgindo?
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Paulo Vilara - A música popular brasileira, hoje, é uma diversidade só, espelho de uma realidade a cada dia mais complexa. Os tempos são outros e mais duros, a violência é apenas uma das faces explícitas dessa crueza. Nesse sentido, o trabalho dos Racionais faz um grande sentido, falando para os seus, os marginalizados e/ou excluídos da sociedade.
Novos compositores surgem o tempo todo e os melhores, quase sempre, são aqueles independentes, não gravados pelas majors nem veiculados pela grande mídia. Pepitas de ouro que ficam ali, encravadas em sua própria região e que, aos poucos, vão sendo descobertas e apreciadas pelos garimpeiros mais antenados com o brilho quase oculto desses artistas. |
Saiba mais sobre - Paulo Vilara - |
Paulo Vilara por: Edson Cruz e Alcino Leite Neto |
créditos: Foto: Pedro Kirilos |
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