Léo Nogueira
Compositor, letrista e poeta
 
Léo Nogueira
Roma

Chico Buarque pode até entender a alma feminina, mas eu tenho cá minhas dúvidas. Ora, se até o Criador se enganou com Eva… Mas, por falar em criador, e já que o assunto é criação, vou desvendar alguns segredos de se compor no “eu lírico” feminino. Ao menos os meus segredos. Uma das coisas básicas é a atenção. Perceber comportamentos, gestos, tiques nervosos, afetações, sinceridades, a linguagem do olhar, perceber as reações diversas da mulher em algumas circunstâncias, em comparação às do homem, tentar penetrar o mais fundo possível em sua alma (eu disse “possível”). Há também aquelas canções em que o compositor escreve o que gostaria de ouvir. Mas não é o caso desta. Muito pelo contrário…

“Roma” nasceu de uma briga. Aliás, de um monólogo. O compositor em questão, estando praticamente inocente de uma acusação, ouvia poucas (muitas) e boas da patroa… Perdão, esta palavra, utilizada nesse contexto, merece um comentário. Já se perguntaram por que alguns maridos chamam suas esposas de patroa? Porque alguns maridos são funcionários do casamento! Voltemos: dizia eu que o compositor estava ouvindo poucas e boas da patroa por algo que ele não havia feito, e, se houvesse feito, teria sido sem querer. Diz a experiência que o melhor a se fazer nesses casos é calar-se. Mesmo porque quem grita não ouve, e, pra ser ouvido em tal circunstância, há que se gritar mais alto, o que não é aconselhável a pessoas que possuem cordas vocais frágeis, como é o caso do personagem em questão. De maneira que nosso herói ouvia tudo calado. Um outro agravante é que, quem possui cordas vocais frágeis, possui tímpanos ainda mais delicados. Ao constatar isso, nosso Quixote do Ceará percebeu que sua presença naquele recinto, naquele momento, não estava agradando sua nipoDulcinéia, e foi dar uma volta. Outros iriam beber. Ele não. Resolveu caminhar, e, enquanto caminhava, ia fazendo a reconstituição dos fatos. E, enquanto se repetia mentalmente “você é isso, você é aquilo”, foi nascendo a idéia pra uma letra. Justamente aproveitando (e exagerando) o texto da patroa, com boa dose de autoflagelo, nosso Dante dos trópicos se viu compondo a letra de “Roma”, utilizando-se do famigerado “eu lírico” feminino.

A letra ficou anos arquivada, até que o autor conheceu Clarisse Grova (ela sim, a dona da voz!) e viu nela as cordas vocais necessárias (e os respectivos pulmões) pra que a frase “Eu desejava ter um Nero e que pra ele eu fosse Roma” finalmente ganhasse seus devidos contornos dramáticos. Claro que a letra precisava de uma lapidação, pois, no calor do momento em que foi composta, alguns neurônios teimavam em comprometer o ato pleno da criação. Recauchutada a letra, foi questão de dias pra que Clarisse incendiasse nova Roma, pra delírio de patroas donas de abençoadas cordas vocais. E-la:

 

Sabe por que me desespero?

É porque você não me toma

Eu não suporto um morto, um mero,

De olhos abertos, mas em coma

 

Sabe por que você é um zero?

É que você pra mim não soma

Eu desejava ter um Nero

E que, pra ele, eu fosse Roma

 

Sabe por que já não te quero?

É porque você não me doma

Não faço parte do seu clero

Eu falo um outro idioma

 

Saiba você, que uma amora

É com desfrute que se come

Cansei de ver chegar a aurora

No afã de saciar a fome

 

Saiba que quando você chora

Fica minúsculo o seu nome

Não sou escudo, nem escora

Sou fogo que não te consome

 

Só estou livre, sendo fera

Na jaula do meu domador

Foi pela fresta dessa espera

Que escapuliu o meu amor

 
   
: : Textos, crônicas, etc...
   
 

 
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