Alcino Leite Neto
Jornalista, editor de Moda da Folha de S.Paulo e editor da revista eletrônica Trópico, do UOL.
 
Alcino Leite Neto
Utopias Musicais
Palavras Musicais contém longos e interessantes depoimentos de quatro compositores brasileiros: Fernando Brant, Márcio Borges, Murilo Antunes e Chico Amaral. Eles falam sobre música popular, e também sobre cinema, literatura, política, história e boemia. As entrevistas feitas pelo jornalista, roteirista e diretor de documentários Paulo Vilara são guiadas pelo interesse em apreender a dimensão cultural da atividade de cada um dos músicos, em relacionar as biografias com a vida do país, em ligar a inspiração individual à experiência coletiva. São conversas preocupadas sobretudo com os fatores que levam a canção popular a adquirir, de repente, uma força artística e social maior, tal como ocorreu, em plena ditadura militar, com as canções do Clube da Esquina, grupo tão rico de referência musicais quanto poéticas, tão espontâneo quanto decisivo para a MPB.
 
Fernando Brant, Márcio Borges e Murilo Antunes estiveram diretamente ligados ao Clube da Esquina. Como protagonistas desse momento relevante da música brasileira, eles descrevem em pormenores os fatos, as dúvidas e as descobertas que moveram o grupo, do qual faziam parte Milton Nascimento, Wagner Tiso, Lô Borges, Toninho Horta, Beto Guedes, Nelson Ângelo, Tavinho Moura, Flávio Venturini, entre outros – que também deram preciosos depoimentos a Paulo Vilara, em mais de 60 horas de gravação. É toda uma época muito fervilhante que se vai apresentando ao leitor, por intermédio de pessoas que a viveram com intensidade: o final dos anos 1960 e as décadas de 1970 e 1980, com os movimentos estudantis, os festivais de música, a Tropicália, os Beatles e Bob Dylan, a política e as drogas, Glauber Rocha e Jean-Luc Godard, os hippies e os guerrilheiros, a redemocratização do país e as novas ondas que chegam com a década de 1980.
 
O furacão das utopias libertárias e marxistas corria o mundo naqueles primeiros anos, impulsionando os jovens para a invenção de alternativas a um mundo caduco e repressor. Na montanhosa, provinciana e conservadora Minas Gerais – um dos focos do golpe militar de 1964 – o vento da liberação chegava embalado por estranha mescla de entusiasmo e melancolia, de ousadia e nostalgia, de confiança e desencanto. “Solto a voz nas estradas / já não quero parar / meu caminho é de pedra / como posso sonhar / sonho feito de brisa / vento vem terminar / vou fechar o meu pranto / vou querer me matar”, diz uma das mais famosas canções do período, “Travessia”, feita por Milton Nascimento e Fernando Brant em 1967.
 
Este livro, que traz alentada discografia e dezenas de fotos e letras de música, não é, porém, apenas a arqueologia de um movimento nem de uma época. Tanto assim que a obra vasculha a produção atual dos compositores e acrescenta depoimentos de músicos mais jovens, como Chico Amaral e Samuel Rosa, do Skank – que traçam continuidades e contrapontos à geração anterior. Com suas idas e vindas no tempo, as deliciosas e minuciosas conversas de Paulo Vilara, além de serem um documento da memória musical brasileira, acabam por revelar tudo o que o ato de criação tem de extemporâneo e intempestivo, capaz tanto de engrandecer o presente quanto de impulsionar ao futuro.
 
   
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